Como os ultraprocessados afetam nosso equilíbrio emocional
- Valéria Bartholi

- 8 de mai. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 11 de jul. de 2025
A indústria alimentícia tem uma premissa básica: conquistar o paladar do público. Existe muita tecnologia e ciência envolvidas na elaboração dos produtos alimentícios, mas basicamente o foco está na textura, no sabor e na cor. Ou seja, o produto tem que ser fofinho e crocante, deve ter um sabor que deixa marcas na sua memória, e uma cor atrativa. O problema é que, para unir tudo isso, são usados muitos aditivos químicos, gordura, sódio e açúcar.
Também não é novidade que a indústria tem estratégias de marketing utilizando termos nas embalagens como “natural”, “sem adição de açúcar”, “baixo teor de gordura”, para mostrar que o produto é “saudável”. Porém, esses produtos podem conter xarope de milho que é proveniente do amido de milho e contém açúcares naturais (principalmente glicose e maltose) em grande quantidade. Mas, pela legislação, a ausência de adição de açúcar durante a produção permite a classificação como "sem adição de açúcares". Exatamente isso! É uma maneira de driblar as leis e enganar o consumidor. Além da indústria criar a ilusão de que certos alimentos podem resolver todos os problemas de saúde, como o famoso “Danoninho que vale por um bifinho”, eles ainda ocultam a adição de diferentes tipos de açúcares.

Não se deixe levar por modismos
A alimentação deve incluir alimentos frescos e minimamente processados, como frutas, verduras, legumes, grãos, oleaginosas, sementes, óleos não refinados, peixes e carnes. Os nutricionistas são peças fundamentais na orientação criteriosa, sem se deixar levar por modismos.
Mas qual é o maior problema dos ultraprocessados, afinal? Os ultraprocessados são, além de calorias vazias, são agentes de desconexão emocional e metabólica. O excesso de gorduras vegetais, açúcares e inúmeros aditivos químicos, contribuem para as doenças crônicas não transmissíveis. Seu consumo causa 57 mil mortes por ano no Brasil, segundo estudo do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens/USP).
Os ultraprocessados saudáveis, conhecidos como "clean label"
Clean label é a tendência de rótulos que busca oferecer alternativas mais naturais e saudáveis com informações mais claras, menor número de ingredientes e aditivos naturais em vez de químicos. Porém, mesmo esse tipo de alimento ultraprocessado impacta o cérebro, estimulando picos de dopamina e gerando dependência. A sensação de recompensa fácil, atua como ansiolítico rápido, mas pode gerar rebaixamento emocional posterior, além de:
Desajustar receptores de saciedade e fome real
Comprometer eixo intestino-cérebro
Alterar a microbiota intestinal, gerando disbiose
Aumentar a inflamação de baixo grau, ligada a quadros de depressão e ansiedade
Reduzir a produção natural de neurotransmissores como serotonina e GABA
Afetar a identidade alimentar do indivíduo, ao substituir refeições reais por “produtos alimentícios”
Induzem ao comer automático, compulsivo e dissociado
Diante desse cenário, o nutricionista precisa escolher seu papel
A responsabilidade do nutricionista é cuidar, sem gerar traumas ou emitir julgamentos. O nutricionista não é um prescritor de calorias, mas deve ser um facilitador de reconexão e cura através do alimento. Temos o dever de ensinar os pacientes a comer com consciência, prazer e presença. Temos que trazer plantas, fibras, cor, texturas de volta à mesa, esquecer a matemática e entender que o alimento é vivo, ele transmite informações preciosas para o nosso cérebro.
Referência:
Ultra-processed food consumption is positively associated with the incidence of depression in Brazilian adults (CUME project)
Arieta Carla Gualandi Leal 1, Leidjaira Juvanhol Lopes 2, Katiusse Rezende-Alves 3, Josefina Bressan 4, Adriano Marçal Pimenta 5, Helen Hermana Miranda Hermsdorff 6



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